[Dimitri está triste por causa da morte de uma amiga]
- Estive pensando. Não há motivo para sentires tamanho abatimento. Quero te contar uma fábula japonesa que certamente vai melhorar teus ânimos.Dimo recosta-se na cama curioso e Bouchedefeu senta-se ao seu lado:
- Um monge voltou ao convento depois de anos de peregrinação. Assim que atravessou os portões, percebeu que os bárbaros haviam ateado fogo ao templo e destruído os jardins. Em desespero, o pobre homem lançou-se ao chão rasgando as vestes e bradando aos céus: “Parto em busca de sabedoria e resignação e quando retorno é isto que encontro? Qual o sentido desta provação?”. Nesse momento, um outro monge, velho e cego, chegou-se a ele e disse: “Então de nada serviu tua jornada? Não aprendeste que, por mais terrível que seja o infortúnio, algo pior sempre poderia ter ocorrido?” O jovem monge retrucou com impaciência: “Não seja estúpido, velho cego. Que haveria de acontecer que me entristecesse mais do que isto?”. E o velho respondeu: “Tu é que és parvo. Pois estás aí a chorar pelas plantas do jardim e pelas pedras do templo sem saber que teu pai e tua mãe morreram de tifo”.
Dimitri olha por um instante para Bouchedefeu e desanda a rir:
- Gérard, tu é que estás mais maluco que esse velho cego. Que tenho eu a ver com monges e conventos?
- Nada. Mas teu pai e tua mãe morreram de tifo.
Dimo leva um tempo até se dar conta da enormidade que acabara de ouvir:
- O que estás dizendo?
- Já disse. Teu pai e tua mãe morreram de tifo. Sinto muito, meu rapaz. Se te serve de algum conforto, eu também sou órfão.
As coisas que fazemos para voltar no tempo. As coisas que não fazemos na primeira vez.
Se você me visse agora (Cecelia Ahern)
Quando você deixa um copo ou um prato cair no chão, provoca um ruído alto de coisa quebrando. Quando uma janela se estilhaça, um pé de mesa se quebra ou um quadro cai da parede, tudo isso faz barulho. Mas quando se trata do coração, quando ele se parte, é completamente silencioso. Seria de se pensar que, sendo ele tão importante, provocaria o ruído mais alto do mundo, ou mesmo alguma espécia de som cerimonial, como o som de um címbalo ou o badalar de um sino. Mas o coração é silencioso e você quase deseja que haja algum som que o distraia da dor.
Mas essa é a questão que envolve as lições: sempre as aprendemos quando não as esperamos ou não as queremos.
Se você me visse agora (Cecelia Ahern)
- Não quero me despedir dela. Quero ficar com ela para sempre, Opal. Ela me faz sentir mais feliz do que jamais me senti na vida e diz que faço o mesmo por ela. É claro que seria errado me afastar disso.
Mas por que comecei a pensar em Elizabeth naquele momento? Eu estava fazendo isso o tempo todo. Em situações completamente alheias, pensava nela e ela se tornava parte do cenário. De repente, começava a me perguntar, o que ela pensaria, como se sentiria, o que faria ou diria se estivesse comigo? Tudo isso fazia parte do ato de entregarmos a alguém um pedaço de nosso coração; esse alguém acabava pegando um naco enorme de nossa mente, guardando-o todo para si.
- Acredito em você - declarou. Mas, no fundo, Elizabeth sentia medo. Sentia medo de acreditar em Ivan, medo de acreditar, ponto final, pois quando isso ocorria, suas esperanças subiam até o alto do mastro e punham-se a balançar ao sabor do vento para que todos vissem. Lá, enfrentavam tempestades e ventos, apenas para serem baixadas, esfarrapadas e arruinadas.
Ele se aconchegava em seus braços mesmo quando eles não estavam abertos; aparecia em sua casa sem ser convidado e ainda assim ela não conseguia deixar de abrir a porta uma vez após a outra. Era atraída por sua presença e pelo modo como a fazia senti-se, por seus silêncios e por suas palavras. Ela estava se apaixonando por ele.
Ele sempre dizia a coisa certa, mesmo quando ela não queria ouvir.
Se você me visse agora (Cecelia Ahern)
No rosto dela havia uma expressão de pura felicidade. Ela parecia uma mulher completamente diferente.
Se você me visse agora (Cecelia Ahern)
